quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Uma outra comunicação é possível?


A comunicação como a entendemos hoje, relacionada aos meios de comunicação, nasce com os ideais da Idade Moderna, que se diferencia da Idade Média essencialmente pela concepção de sujeito autônomo, impulsionada pelos ideais iluministas. Portanto, a comunicação estava vinculada ao ideal revolucionário de ampliação da esfera pública, compreendendo esfera pública como a dimensão da vida social em que as pessoas podem manifestar suas ideias livremente.
Emerge então na sociedade moderna a demanda pela informação, pela ampliação do debate público. Partindo desses pressupostos, podemos considerar que a história do jornalismo acompanha a história da sociedade moderna. Ciro Marcondes Filho (2000) chama a primeira fase do jornalismo de jornalismo de Ilustração, trata-se de publicações que defendiam causas políticas específicas. A segunda fase pode ser chamada de jornalismo mercantil, que passa a vender informação e a tentar diferenciar informação de opinião.
Com a venda de informações o jornalismo caminhou para a criação e ampliação de empresas de comunicação e o fortalecimento dessas empresas juntamente com o desenvolvimento de tecnologias da informação, remete ao que poderíamos chamar hoje de jornalismo tecnológico, que busca ser multilinguagem e é marcado pelo monopólio das empresas transnacionais.
Analisar esse percurso passa inevitavelmente pelas tentativas de compreensão da sociedade moderna como um todo. Octavio Ianni (2000) coloca que, na modernidade conceitos clássicos como cidadania, ideologia e sociedade são compreendidos como consumo, mercadoria e mercado e são estes últimos os crivos do que é disseminado pelos grandes meios de comunicação.
Quando falamos em jornalismo tecnológico, estamos tratando de uma nova esfera representativa que está se construindo com o avanço surpreendente das novas tecnologias. Esta nova perspectiva afeta todas as relações e cria novas formas de compreensão da realidade e das representações. Muniz Sodré (2002) desenvolveu o conceito de bios midiático em que, revisitando as instâncias da vida colocadas por Aristóteles, afirma que há um novo espaço de existência contemporâneo, que possui valores técnicos, sociais e burocráticos próprios e que tem como uma de suas características a supervalorização da imagem, fortalecendo os simulacros e criando uma outra esfera pública com ideais diferentes daqueles colocados por Habermas (1984), que intensifica a falsa sensação de democratização do poder e da informação.
De maneira paralela e concomitante, nascem formas de comunicação independentes aos poderes instituídos, é o que John Downing (2002) chama de mídia radical alternativa, que tem como seus argumentos centrais a pluralidade das culturas populares e o diálogo constante entre as culturas de oposição, culturas de massa e culturas populares.
Na busca de um conceito de cultura popular, Downing (2002) problematiza alguns teóricos como Theodor Adorno e Max Horkeimer, autores da Escola de Frankfurt. Adorno, ao rever o conceito de cultura de massa produzida dentro da lógica industrial, desenvolve o conceito de indústria cultural. Downing coloca que a indústria cultural impede a criatividade e limita a construção simbólica para além das classes dominantes.
Ao observamos a abordagem sócio histórica de cultura popular colocada pelos teóricos dos Estudos Culturais (Escola de Birmingham), constata-se que, na busca por trabalhar os conceitos de maneira dialética, que em Stuart Hall (2003) estão inseridos em uma perspectiva diaspórica (compreende as hibridizações inevitáveis entre as culturas, especialmente diante dos processos de deslocamentos marcados pelas migrações e imigrações), há uma superação de conceitos enrijecidos de cultura popular, que a vinculam a uma tradição folclorista, não engajada e limitada dentro de um espaço de tempo e território.
Para Downing (2002), toda forma de mídia influencia de alguma maneira o movimento das sociedades, portanto, o estudo contextualizado da comunicação não pode ignorar as manifestações que não estão vinculadas à grande mídia. Ainda de acordo com o autor, as manifestações artísticas como danças, anedotas, teatro, gravuras, filmes, tatuagens, murais e grafite podem ser compreendidas como mídia radical tanto quanto o uso de meios mais tradicionais de comunicação como os jornais, emissoras de rádio e televisão e a internet.
O cenário da comunicação brasileira se demonstra cada vez mais perverso, marcado por monopólios, pelo não respeito aos artigos da Constituição, por guerras claras de poder e pelo uso indevido das informações, em um processo que mais confunde do que esclarece a população.
A concepção de uma mídia para além dos grandes grupos transnacionais de comunicação, independentemente de ser chamada alternativa, radical, subalterna, contra-hegemônica ou popular, se caracteriza essencialmente pela crítica e pela manifestação da diversidade e é necessária para a construção de uma sociedade que saiba lidar melhor com a pluralidade de culturas.
Dentre os exemplos de mídia alternativa no país, podemos destacar o jornal “Brasil de Fato”, que foi lançado no Fórum Social Mundial de Porto Alegre e há oito anos circula semanalmente com distribuição nacional. O jornal mantém também um website:  http://www.brasildefato.com.br/ , que foi atualizado no segundo semestre de 2010.
A internet tem sido muito utilizada pelos movimentos sociais e pelos meios de comunicação alternativa que já existiam em plataformas tradicionais como uma ferramenta de divulgação e de troca de informações que vão além das pautas da grande mídia. Reunindo várias linguagens, o novo site do jornal Brasil de Fato, traz além das principais notícias veiculadas no jornal impresso, textos de articulistas, vídeos, charges e podcasts do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC).
Outra possibilidade de uso da internet são as rádios comunitárias, que possibilitam que emissoras de comunidades como a da favela de Santa Marta (www.radiosantamarta.com.br) e de Heliópolis (www.heliopolisfm.com.br) sejam ouvidas pelo mundo inteiro. Além do áudio no site da rádio Santa Marta é possível acompanhar também em vídeo o trabalho da comunidade.
A possibilidade da convergência de diversas linguagens na internet permite a ampliação dos espaços da mídia alternativa e a criação de redes de trocas de informação para além das pautas da grande mídia.

Bibliografia:
MARCONDES FILHO, Ciro. A Saga dos Cães Perdidos.São Paulo: Hacker editores, 2002
HABERMAS,Jurgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984
IANNI, Octavio. Enigmas da Modernidade Mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000
SODRÉ, Muniz. Antropológica do Espelho. Petrópolis: Vozes, 2002
DOWNING, John. Mídia Radical. São Paulo : editora SENAC, 2002
ADORNO, T e HORKHEIMER. M. Indústria Cultural – o esclarecimento como mistificação das massas. In: Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte: UFMG, 2003.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

2o. Turno

domingo, 26 de setembro de 2010

Todo poder tem limite ???

Surpresa (talvez esperada) hoje pela manhã um editorial enorme na capa do jornal “Folha de São Paulo” , texto inflamado afirmando que há um interesse do governo Lula e possivelmente do próximo governo em cercear a liberdade de imprensa. A capa da revista “Veja” não poderia ser diferente, uma estrela vermelha, um trecho do capítulo sobre a Comunicação Social da Constituição Federal e a chamada: “ A Liberdade Sob Ataque”.
As críticas de Lula à grande imprensa chegaram tarde demais, um governo que teve como ministro das comunicações Hélio Costa, um homem historicamente vinculado aos grandes grupos de comunicação do país, que implantou um modelo de TV Digital que não colabora com a qualidade do conteúdo da programação, que não propôs revisões do papel da ANATEL e até mesmo fortaleceu a violência contra os movimentos das rádios livres e comunitárias. Um governo que só fez uma Conferência Nacional de Comunicação, que resultou na criação de uma lista enorme de propostas, sem nenhuma previsão de serem efetivadas. Que teve como maior bandeira a implantação dos telecentros e da banda larga, sem entender que mídia livre não é sinônimo de mídia digital, que o problema da comunicação no país é muito mais profundo que o acesso à internet.
Parece clichê falar nos monopólios e oligopólios evidentes na comunicação deste país, mas talvez valha a pena refletir que temos sete famílias cuidando de 90% dos meios de comunicação, que não há possibilidade de aplicação do artigo da Comunicação Social porque não existem formas legais de controle do respeito à lei, que as leis de radiodifusão comunitária são limitantes, que as leis para regionalizar a programação estão tramitando no Congresso há mais de 10 anos e nunca são aprovadas, entre outros inúmeros fatores problemáticos.
Quando Lula se coloca contra à ação da grande imprensa ele reafirma que seu governo não tomou nenhuma decisão efetiva pela democratização da comunicação. A resposta da grande mídia reafirma que estamos sobre uma ditadura, a ditadura das grandes empresas de comunicação, que se sentiram contrariadas, que se eximem da responsabilidade pelo que expressam em um país que não compreende que a comunicação é um direito.
O que há de mais surpreendente no dia de hoje talvez seja “O Estado de São Paulo” ter colocado seu apoio à candidatura de José Serra, afirmado que não preza e nunca prezou pelo equilíbrio ou pela tentativa de imparcialidade jornalística.
Toda a movimentação da mídia às vésperas da eleição é esperada, estamos em uma semana de grandes decisões, o que não pode continuar sendo comum é o silêncio, a aceitação de uma mídia que não tem nenhum respeito pela diversidade e pela pluralidade, uma mídia que não se propõe a enriquecer o debate público.
Independentemente de quem ganhe as eleições, as discussões de hoje devem abrir os olhos para a realidade problemática da comunicação no Brasil.